solução

Esta é a aventura de um homem desgovernado. Provocava problemas rodoviários, recorria em problemas bancários, sofria desilusões pessoais, perdia o fôlego nos projectos e faltava constantemente a compromissos adiados. Um dia pensou em suicidar-se. Olhou em redor da sua sala, foi à cozinha, wc e ainda passou pelo quarto, mas não descobriu nenhuma corda, arma ou escadote bamboleante. Pior, o forno era eléctrico, as facas estavam rombas e habitava um rés-do-chão. Exigiu-se não falhar este plano como tantos outros que tinham ficado pelo caminho. Abriu os classificados de um diário, procurou solução e encontrou-a na forma de um trabalho de alto risco: empresário…

Ficou radiante! Em Portugal, o seu objectivo não falharia.

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balanço

Esta é a aventura de um balanço da primeira década de um novo milénio. Balançou entre o mau e o bom, o mal e o bem, a tempestade e a mudança. Galanteou e foi correspondido, viveu diariamente uma outra vida do seu início ao não esperado fim, sobreviveu a choques e xokes, abalançou-se em negociatas e ilusões, bravatas e safanões, serenatas e lições.

Num repente, passaram 10 anos. O balanço esperava-se equilibrado nesta passagem ou ultrapassagem mas a coisa não se deu, como nada se dá quando se fazem projectos, e olha agora as primeira folha da nova moleskine preparadíssima para o primeiro dos anos 10. Está também com grandes ganas para escrever a primeira linha, uma que resolverá tantas outras escritas nos últimos anos.

Há fé e esperança, túnel e luz e muito café para uma grande mudança.

O balanço vai, finalmente, pender para o outro lado.

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onda

WaveEnergy

Esta é a aventura de uma onda que viajou por todo um oceano até chegar à costa de uma praia portuguesa. Ao vê-la com a luz de uma manhã que trazia consigo, olhou as companheiras de viagem e percebeu que todas pensavam o mesmo: o fim da existência estava logo ali, na rebentação calma que desapareceria em cima de uma terra molhada de areia clara, quase branca.

A onda começou a tentar travar a sua progressão, mas a corrente não deixava. Era uma corrente má, forte e apenas tinha por objectivo terminar a sua viagem.

Assustada, a onda pediu ajuda às restantes, mas a corrente conseguiu cercá-las e juntá-las numa vaga cada vez maior.

Juntas e muito apertadas, já viam como tecto uma espuma branca e vigorosa. De repente, tudo se abateu num turbilhão enorme, andaram às voltas e perderam toda a força.

A onda sentiu um calor bom neste seu final. O sol já brilhava com alguma força. E depois desapareceu.

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tosta

tostas_variadas

Esta é a aventura de uma tosta. Nunca gostou do seu aspecto, um pequeno quadrado igual a tantos outros em que até a cor é milimetricamente estudada para se confundir com as demais.

Esta tosta gostaria de ser caseira ao invés de industrial. Desejava saber a pão a sério, como aqueles da terra e de forno a lenha, enrijeceria aos poucos e quando ficasse mesmo dura seria cortada ao calhas por mãos humanas para ser demolhada e saboreada com leite ou café ou molho. Poderia ainda servir como torrada e seria banhada com manteiga tradicional cheia de sal ou, quiçá, servida como açorda.

A vida que poderia ter, livre de sacos plásticos ou celofan justinho. Mas esta é a sua e servirá para misturas finas, com traços gourmet num aspecto delicioso e altamente calórico.

Mesmo assim daria a côdea por uma vida simples e sem grandes preocupações.

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esfera

imagem.asp

Esta é a aventura de uma esferográfica com ponta tipo rollerball e botãozinho para ela surgir ou desaparecer para não secar a tinta ou sujar o bolso da camisa. Em suma, esta é uma esferográfica tipo ponta e mola tal como as navalhas com a mesma alcunha e ela sabia que os seus escritos poderiam ferir tão ou mais que a lâmina delas.

Portanto, tinha muito cuidado com o que deixava escrever, entupia quando achava necessário e até tinha truques de último recurso, como jorrar mais tinta e criar um borrão no papel, abrandando assim a criatividade de quem a utilizava. Tinha também as suas manias como recusar-se a escrever em papel humidificado por tristezas ou, horror dos horrores, em papel plastificado.

Tinha uma vida porreira, era usada bastas vezes e até gostava da maior parte do que escrevia. Tudo corria bem até que a sua própria carga começou a definhar. Primeiro foram uns entupimentos, depois umas valentes sacudidelas para ver se a tinta chegava à sua esfera. O fim da existência estava ao virar de uma página e foi com urgência que começou a escrever o seu testamento.

Depois de umas linhas onde deixou conselhos à esferográfica novinha que lhe seguiria os passos, preparava-se para assinar de cruz quando a sua alma se extinguiu. E na precisa altura em que foi atirada para o balde do lixo, desejou nunca ter sido uma ponta e mola mas apenas uma pena.

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Cordame

ROPE-9MM-ACC258

Esta é a aventura de um tasco que queria crescer e ser restaurante daqueles com bar. Um sonho muitas vezes traído pelas muitas despesas e demasiados impostos, novo carro em segunda mão do dono e pelas inspecções da Asae que eram sempre um azar dos diabos.

A sua localização era óptima, de frente para o mar e rodeado por extenso areal. Higienicamente não era perfeito, nem na cozinha, nem nos lavabos. Mantinha um conjunto de problemas persistentes e, convenhamos, chatos.

As épocas passavam até que uma amiga deste tasco, a Dona Taberna, lhe contou um segredo: ao que parece, os políticos e jetsetianos gostam de ser vistos neste tipo de covis porque acham giro misturarem-se com o povo. Portanto, se o tasco quisesse ter essa frequência era só puxar os cordelinhos certos para que o seu sonho passasse a ser uma realidade.

O tasco deixou a Dona Taberna sair, correu para a loja mais próxima e comprou a maior corda que encontrou.

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olhares

Esta é a aventura de uma paragem de autocarro. Está colocada num eixo pouco central e só tem companhia duas vezes por dia: às sete da manhã e às 17. Inveja, por isso, as outras paragens daqueles bairros mais confusos, como as avenidas novas, o Rossio, a Almirante Reis, o Areeiro, etc. Gostava de ser uma dessas para conhecer mais pessoas e as histórias que essas pessoas contam da sua vida íntima às outras pessoas que são completos estranhos, mas que numa paragem de autocarro passam a ser vizinhos, amigos, confidentes nem que seja por cinco minutos… vá lá, uns 15 devido aos atrasos.
Contudo, houve uma manhã que mudou tudo. Nesse dia, um jovem no alto dos seus 20 anos e headphones chegou pelo meio dia. Não há muitos autocarros a esta hora, portanto ele sentou-se no banco de ferro para aguentar a demora. Pouco tempo passou até que uma gentil rapariga, no alto dos seus 15 anos e headphones, chegou. Ficou tímida a olhar o rapaz e o espaço disponível no banco.
O autocarro chegou e ambos desapareceram.
No dia seguinte foi a rapariga que chegou mais cedo e, antes de se sentar, olhou em volta como se estivesse à procura de alguém.
O rapaz chegou depois e sentou-se ao lado. Não se olharam, apenas o fizeram para os telemóveis nos quais debitavam sms à velocidade da luz.
O autocarro chegou e ambos desapareceram.
Ao terceiro dia chegaram os dois ao mesmo tempo. Tiraram os headphones e, pela primeira vez, os olhos dos telemóveis. Ficaram a olhar um para o outro, tentando descobrir o que queriam descobrir.
O autocarro chegou mas partiu sem eles.
A paragem estava, finalmente, feliz.

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