Crack

X tem no seu bicho o mais fiel dos cãopanheiros. Leva-o para todo o lado em grandes passeatas a pé ou de carro. Ensinou-o a detestar má música (porque a há) e a adorar a boa (porque é a que gosta). Ensinou-o a parar numa passadeira e a não comer nada do chão. Não o ensinou a dar a pata.
Leu-lhe uns quantos livros em voz alta e faz figuras ridículas com os headphones na cabeça. O bicho gosta. Num destes dias, X chegou a casa. O bicho estava a agonizar pelo jardim. X decidiu abrir o porta-bagagens e deixá-lo ir à vida, enquanto arrumava a stationwagon num lugar de smart.
As manobras sucediam-se para a frente e para trás. X começava a ficar preocupado pela soltura endiabrada do bicho. De repente ouviu um crack. Pensou num toque de pára-choques. Fez novamente a manobra e o crack repetiu-se. Seguiu-se um longo e aflitivo ganido. X fechou os olhos antes de saltar do carro. Entre a roda e o passeio estava o bicho, meio desfeito sob o peso do carro. X gritou e agachou-se, agarrando-o fortemente. O bicho ganiu baixinho, fez um último esforço para lamber o dono e, pelo que parece, ainda sorriu.

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