aura

Era o mais novo de cinco irmãos e duas irmãs e era o único que fumava. E fumava muito, quatro maços diários. Gostava de tertúlias, de beber o seu conhaque. Assistiu ao declínio da sua mulher, com quem já nem comunicava há anos. O seu filho, médico, avisava-o constantemente e até houve discussões em que o responsabilizou pela doença da mãe. Os seus irmãos estavam mais que habituados à densa nuvem de fumo, mas a vida era dele.
Um a um foram morrendo. De enfarte, de embolia, de cansaço e da vida. O único que fumava e bebia uns copos continuava vivo, de saúde.
Até que foi ao médico. Avisado que iria morrer em meses se não largasse o vício, assustou-se e deu a última bafurada do último cigarro do quarto maço desse dia.
A partir daí encheu os bolsos de rebuçados. Os casacos ficaram deformados com esse peso. Engordou e começou a sentir-se fraco.
Novamente no mesmo médico, foi-lhe diagnosticado diabetes. A ele, que nunca tinha tido uma única doença.
Pediu-lhe cinco minutos para ir à casa de banho, desceu à rua onde comprou um maço de tabaco e um pequeno canivete.
Já no consultório, abriu o pacote, acendeu um cigarro, deu uma valente fumaça sem ouvir os gritos do doutor. Quando acabou esse gozo, tirou o canivete da algibeira, abriu-o e deu dois valentes golpes nos pulsos.
Sorriu. E pediu ao médico que lhe acendesse outro cigarro e o colocasse na boca.
Morreu envolto na nuvem de fumo que já era a sua aura.

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