estacas

X não compreendia porque estava sózinho no mundo. Todos os dias andava dezenas de kms sempre na mesma direcção e sempre movido pela certeza que não era o único habitante desta terra. Dormia onde se podia abrigar melhor dos ventos e frio, caçava pequenos animais para recuperar forças e, diariamente, olhava o horizonte e iniciava a caminhada.
Foi depois de subir um pequeno monte que os seus olhos viram qualquer coisa estranha. Desceu a correr, tropeçando aqui e ali e cada vez estava mais perto. À sua frente estava uma cerca, de estacas perfeitas, todas da mesma altura e todas à mesma distância umas das outras. Uns centímetros que não o deixavam passar para o outro lado. A cerca não tinha fim, nem para a esquerda nem para a direita e perdia-se de vista. Decidiu acampar ali. Passaram alguns dias até que decidiu caminhar ao longo dela e para a esquerda. Tinha a certeza que alguém a tinha colocado e portanto não era o único nesta terra.
Caminhou muito, durante meses e a cerca sempre perfeita.
Numa madrugada acordou com um ruído. Levantou-se sobressaltado. Do outro lado estava um homem que o olhava receoso e espantado.
X cumprimentou-o e explicou-lhe toda a sua aventura que era, afinal, a sua vida. X2 apresentou-se. Também ele caminhava há muito tempo, paralelo à cerca.
Não tinham grande coisa para conversar, pois também não sabiam grande coisa. Tentaram forçar as estacas para conseguirem ultrapassar a cerca, mas sem sucesso. Caminharam juntos ao longo dela durante muito tempo. X falava muito e queria tentar sempre passar para o outro lado. X2 era mais calado e já estava farto de tentar forçar as estacas.
Começaram a discutir. Um pouco de cada vez, depois mais vezes até que iniciavam o dia aos gritos só se calando à noite.
Na manhã seguinte, X acordou e preparava-se para discutir quando reparou que X2 estava bem longe, lá ao fundo. Gritou por ele. X2 parou, voltou-se e fez um adeus com uma mão, para depois recomeçar a caminhada para o horizonte.
X ficara novamente sozinho. Agarrou nas estacas, não as forçou, despediu-se delas e virou-lhe as costas, iniciando a sua caminhada para o seu horizonte.
Cá em cima, sentado numa grande nuvem, Deus riu-se. Tinha dividido a terra em duas metades pela grande cerca de estacas. Encolheu os ombros, recostou-se e adormeceu.


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