borrão

Uma gota grossa pingou-lhe a folha. A circunferência do borrão ia aumentando, comendo as palavras que já estavam escritas, os sentimentos que, com coragem infinita, depositou no papel.
Olhou para o mata-borrão, ali mesmo ao lado, mas deixou-se hipnotizar pelo percurso da tinta e pelas palavras que preferia esmagar, esconder, englobar.
Passados uns minutos, o borrão ocupava parte central do seu manuscrito. Tinha até uma figura poderosa, como se fosse um buraco negro.
Tentou espreitar se havia vestígios de palavras, de letras, de pontuação. Nada de nada.
Apenas as que ficaram na sua auréola, semi esmagadas e para sempre desacompanhadas.
Deixou secar bem a folha, dobrou-a cuidadosamente em três e enfiou-a no envelope que já era o seu destino.
Era a primeira carta de amor, de esperança que escrevera. Tinha um destinatário.
E agora, achou por bem, que fosse o destino a tratar do resto.
Se sim, se não, a resposta chegaria pelo correio.
Restava esperar até lá.

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