Natal

O choque era geral. No seu trono de um grande armazém lisboeta jazia o Pai Natal daquele ano, um velhote que só queria ganhar uns trocos a mais para dar uma refeição digna à sua família. Chamaram-se polícias e detectives, públicos e privados. As portas fecharam-se, a clientela ficou presa dentro do estabelecimento. Um porta-voz das forças de segurança avisou pelo sistema sonoro, que antes tocava repetidamente o mesmo cd natalício de todos os anos, que iria acontecer um inquérito imediato a todos os presentes e que o dia ia ser longo. Toda a gente foi colocada numa longa fila e foi com dificuldade que tentavam encontrar os respectivos telemóveis no meio de tantos pacotes e sacos de presentes.
A poucas dezenas de metros dali deu-se o alarme! Outro Pai Natal tinha sido morto. A polícia não sabia o que fazer e os clientes tinham encontrado a razão para exigirem a sua liberdade.
A meio da tarde os telejornais confirmavam os terríveis acontecimentos: cerca de 57 Pais Natal estavam sem vida. Foram convidados polícias, bruxos, psicólogos e tarólogas para um especial informativo, com linha telefónica directa para quem quisesse opinar do conforto da sala.
As lojas exigiam a reabertura, pois com a crise que anda aí, estes dias de Dezembro aliados aos subsídios dos clientes, eram demasiado importantes para a sua sobrevivência.
Carros da polícia apitavam por todas as cidades que tinham Pais Natal nas lojas, ainda conseguiram salvar alguns, naqueles centros paroquiais e bazares populares de terreolas desertas.
As crianças choravam em todas as casas e os pais não sabiam explicar que lhes tinham mentido durante estes primeiros anos de vida e que o Pai Natal não existia.
O estado do país passou para vermelho, por acaso cor da coca-cola…
Pelas cinco da tarde, um fotógrafo olhou para o céu. E gritou alto. Todos olharam para cima, toda a gente ficou parada, o trânsito também, até os animais que entretanto tinham sido abandonados pelos donos. Chegaram carros de exteriores e em todos os televisores de todas as casas surgiu um sinal de “especial informação”.
Foram segundos agonizantes até que a imagem surgiu.
Lá no céu, ria-se estridentemente um Pai Natal, sentado no seu longo trenó. As renas, muitas, esperneavam, prontas para uma largada/fugida. O céu tornou-se selvagem, negro, envolvendo estas personagens. Até que numa voz grave e poderosa, o Pai Natal gritou “Deixei uma prenda em cada uma das vossas casas, chaminés, meias, o raio que parta!!! Só uma, pois não é preciso mais!”. E foi com um enorme estrondo que as renas puxaram o grande trenó, fazendo uma curva bem por cima das cabeças das pessoas e desaparecendo no infinito.
Toda a gente correu para casa.
Toda a gente passou a noite inteira a olhar para a prenda depositada pelo Pai Natal.
Ninguém ousou abri-la.

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