nevoeiro

X era um homem ansioso. Não nervoso, mas ansioso. Vivia numa cidade cuja luz era exemplarmente branca e afamada por isso. Mas o que ele esperava, todas as madrugadas, era um manto de nevoeiro. Acordava sempre muito cedo e mirava o rio pela sua janela. Quanto mais cerrado fosse o manto, mais probabilidades havia de sucesso.
Só que esta cidade, de luz branca, raramente acordava às escuras. X mantinha-se atento à meteorologia, ao céu, aos satélites através do computador. Só lhe restava mesmo esperar.
Até que, passados uns meses, um aviso: naquela madrugada de 25 de Julho a cidade acordaria sob um espesso manto de nevoeiro.
X vestiu-se, agarrou na mala feita para estas ocasiões e lançou-se numa cidade fantasmagórica.
Depressa chegou à beira-rio, por baixo da ponte velha.
Não se via nada, mas conseguia perceber outros como ele, vultos meio vivos, meio mortos.
Todos olhavam o rio e todos tinham um só desejo.
As horas passaram e com a manhã veio mais luz, raios que atacavam o nevoeiro, que o desfaziam e que, passado algum tempo, o venceram.
X e os outros desconhecidos levantaram-se. Olharam ainda uma vez para o rio, mas já se via a outra margem.
Desconsolados e derrotados, viraram-lhe as costas.
Ainda não foi desta que se deu o regresso.
Mas haverá sempre outro nevoeiro e outra esperança.

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