sorte

X sempre foi um homem de sorte. Ultrapassou doenças graves enquanto bebé, teve alguns acidentes complicados dos quais saiu ileso, nunca se esforçou muito para conseguir o que queria, enfim, foi uma pessoa bafejada.
Mas como tudo na vida, também essa companheira teria que o abandonar e foi sem pedir licença, ou uma qualquer desculpa que, num dia, a sorte despediu-se de X.
Ninguém está preparado para uma partida destas, muito menos X que sempre contou com a sua protecção.
Daí ser estranho todo aquele novo dia.
O relógio com alarme não o acordou para uma entrevista importante, com pressa teve que se vestir duas vezes pois entornou o café na primeira camisa, ao passear o cão começou a chover fortemente, esqueceu-se do CV quando saiu de casa após mal secar o cão, o carro estava bloqueado com um autocolante amarelo que o rodeava, não havia um único táxi disponível e, para azar dos azares, X acabou por ser atropelado numa passadeira.
Acordou no hospital, deitado numa maca num dos corredores frequentados por eternos gemidos de dor, ninguém vinha ter com ele, roubaram-lha a mala, carteira e relógio e a perna começava a doer até à exaustão.
Reacordou na mesma maca do mesmo hospital horas depois. Já tinha apanhado uma constipação e, sem saber, outras doenças. Tentou levantar-se, mas foi com um estrondo que se estatelou no chão. E só aí viu a sua perna, quase desfeita pelo anterior acidente.
Gritou, gritou, gritou tanto que, finalmente, uma enfermeira trouxe qualquer coisa para o adormecer.
Acordou num quarto, cheio de outros doentes. A sua perna não se mexia. Aliás, nada se mexia. Nem os braços, os dedos das mãos. A princípio pensou que era da droga ou anestesia. Mas foi quando um médico, com ar grave e aspecto cansado, se lhe acercou que X soube da grande notícia: a operação tinha corrido mal, a perna teve que ser amputada e, por um número inexplicável de acontecimentos, ele tinha ficado tetraplégico.
X nem queria acreditar. Nem se atreveu a chorar, aliás, nem o conseguia.
Tentou mexer tudo e mais alguma coisa.
O médico pediu-lhe calma, para que não se enervasse. Enfermeiros chegaram para o drogar e foi um deles que reparou que o dedo indicativo de X mexia. Mexia freneticamente.
Depois de várias reações incrédulas, o médico olhou para X, colocou-lhe a mão na testa e, quase em surdina disse-lhe “Parece que vamos conseguir um milagre. O senhor tem muita sorte.”

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