guerra

O bairro de X vive um problema, não social, mas real: a proliferação de pombos, esses nojentos ratos voadores. Há sempre duas ou três velhinhas da praça que se revezam para dar-lhes milho do bom todos os santos dias. A população tem aumentado a olhos vistos, os algerózes entupidos, as inundações frequentes, etc e etc, já para não falar das doenças e dos automóveis.
A população bairrista já se indignou várias vezes, mas não há nada a fazer quando as velhinhas respondem que eles também são criaturas de Deus.
E foi este o primeiro passo para uma guerra sem quartel.
De um lado, os moradores. Do outro, todos os velhinhos amantes de pombos, que atiravam verdadeiras bombas em forma de pequenos sacos cheios de milho, que faziam mossas nos carros, partiam vidros e até algumas cabeças. E com o milho derramado por todo o lado, todos os pombos da cidade surgiram para o festim. Era a guerra total. Os moradores armaram-se de caçadeiras, cal com veneno, fisgas e cães de caça. A polícia de choque ficou chocada com o estado de sítio e o bairro, mais os circundantes foram fechados para garante da segurança de toda uma cidade. Carros foram queimados. As lojas pilhadas. O recolher passou a ser obrigatório, mas ninguém queria saber de mais nada. Cada cagadela ácida na cabeça de um morador era respondido com uma rasteira à bengala que apoiava um velhinho.
Surgiram os partidos e as centrais sindicais, as televisões e os jornais. Mas a chuva ácida estragava câmaras, antenas de satélite e casacos de caxemira.
Por cada pombo que morria, mais 100 surgiam. E com esses 100, outros tantos velhinhos que já vinham em excursões montadas pelas câmaras municipais de cidades bem distantes.
Até que foi chamado o Presidente da República que, com o 1º ministro, trataram de escrever O Segundo Tratado de Lisboa.
Muitas horas de reuniões se passaram. Na mesa estavam representantes dos moradores, dos velhinhos, da polícia e até um pombo.
Passado muito tempo foi conseguida uma resolução!
Toda a baixa pombalina, com os seus notáveis prédios decadentes e esburacados, seriam tomados pelos pombos que aí fariam o seu pequeno estado, prometendo abandonar todos os outros bairros de Lisboa. O milho era-lhes entregue por camiões especiais, que a entidade pública pagava com mais um imposto municipal.
Apertaram-se mãos e asas e casa um foi à sua vida.
Passada uma semana, as três velhinhas juntaram-se em segredo. E escondidas pela noite foram depositar grandes sacos de milho no mesmo sítio onde o faziam antes.

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