a chave

X escolheu aquele dia para mandar fazer uma chave. Foi a todas as casas de chaves que conhecia, mas ninguém tinha o modelo, ou a maquineta de corte ou qualquer outra coisa.
Decidiu encontrar um serralheiro que lhe disse que, pela particularidade, era tarefa impossível.
Falou com artistas modernos que de ar empinado e sofredor contemporâneo passaram de imediato à fuga e à indisponibilidade. Ninguém lhe iria fazer essa chave.
Já num bar, consciente que ia apanhar uma valente bebedeira, acercou-se-lhe um individuo de óculos redondos, lacinho e impecável no trato. Estendeu-lhe o cartão, visto que a compreensão de X já estava um pouco toldada.
No dia seguinte X acordou ressacado, mas ao tirar tudo dos bolsos encontrou o cartão de Y. Tentou lembrar-se a quem pertencia, mas tudo era muito vago. No entanto, decidiu telefonar-lhe.
Marcaram encontro para essa tarde.
Y apresentou-se como um fazedor de chaves mágicas e disse-lhe que conseguia criar a chave que X tanto ansiava. “E como é que sabe o que eu realmente quero?” – perguntou X ainda desconfiado – “Porque eu sei que o que pretendes é uma chave para fechar o coração.”
X não estava à espera da resposta certeira e ficou mudo por largos minutos. Y aguardou pacientemente. X queria perguntar-lhe de onde vinha, quem era e como soube, mas a cada início de frase, Y respondia-lhe com um não sorridente.
Tirou então uma pequena caixa da sua mala. Colocou-a em frente a X. Faltava um pormenor que era uma minúscula chave para abrir a caixa. E Y disse que X só teria de ter a certeza absoluta que queria fechar o seu coração para sempre, pois nunca haveria retorno dessa decisão. A certeza absoluta garantia-lhe a pequena chave para abrir a caixa onde estaria a chave especial para fechar o seu coração.
X, que tanta certeza tinha até então, começou a deixar-se minar pela dúvida. E Y sabia-o, tanto que começou a sorrir. “Sabes X, a chave verdadeira é a dúvida. E já a encontraste. Enquanto tiveres dúvidas, terás uma vida para viver. Essa é a chave da vida”.
Arrumou a caixa dentro da mala, levantou-se, despediu-se com um sorriso e desapareceu pela porta.
X, depois de beber mais um copo também começou a sorrir. E saíu pela mesma porta.

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