telefone

X comprou um telefone inteligente, daqueles que fazem tudo e mais alguma coisa de tão espertos que são. Metade das funções não servem rigorosamente para nada, mas é sempre giro mostrar aos amigos.
Contudo, este telefone era diferente de todos os outros. Criou ideais próprias, tinha vontades inabaláveis e, sobretudo, era raro fazer o que X lhe pedia.
A princípio a coisa tinha alguma piada, pois obrigava X a conhecer as suas entranhas, os seus mais profundos e secretos folders, o sistema operativo e coisas do género.
Foi nos alarmes e nos avisos que, entretanto, a vontade do telefone começou a prevalecer sobre a do seu dono. Os alarmes matinais ouviam-se bem e eram repetidos à exaustão. Mas os alarmes para encontros com raparigas nunca soavam. O mesmo com algumas reuniões que o telefone achava que seriam uma perda de tempo.
X foi à assistência técnica que lhe comunicou que uma série deste modelo tinha saído com um processador muito mais avançado que os normalmente utilizados. Não podiam fazer nada.
X voltou para casa, leu todo o manual de instruções em busca de uma qualquer solução. Nada.
Até que farto de todo este empenho, decidiu telefonar para uma amiga recente, uma daquelas que prometia e cheirava a uma possível relação rápida e sem chatices.
Procurou e não encontrou o número. Aliás, começou a ver que nenhum dos números desse género estavam na memória. Olhou bem de frente para o telefone que, no seu ecrã de não sei quantas polegadas e milhões de pixels, mostrava uma mensagem “Não percas tempo pá e deixa-te de ilusões”.
X percebeu que o telefone tinha tomado conta da sua vida. Literalmente. Foi ver todos os contactos um por um, e dos mais de 500 que tinha só lá estavam uns 50. Desapareceram membros familares, amigos de circunstância, aqueles contactos que num qualquer dia poderiam ser úteis, números que inclusivé não sabia a quem pertenciam, graças a noites de mais folia alcoólica ou outra.
Restavam-lhe 50 contactos. E esses conhecia-os bem. Até quase que memorizou todos os números ao longo dos tempos.
Olhou novamente o telefone de frente e passados uns minutos, agradeceu.

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