fumo

X acordou e olhou para a sua grande janela, a mesma que lhe permite ver a sua cidade quase por inteiro e finais de tarde inesquecíveis.
Mas hoje o tempo estava diferente. Um estranho nevoeiro cobria a tão afamada luz da cidade. Cheirava diferente, pior que as marés mais vazias.
X olhou para baixo, para as ruas do seu bairro. Ali e acolá via pequenas luzinhas vermelhas, rápidas, fugazes e com movimentos bruscos e escondidos.
Decidiu descer para ir beber o café e passear o cão. Também ele estava diferente, mais amedrontado, receoso até. Um estranho silêncio habitava o prédio enquanto o elevador descia os vários andares.
Mal abriu a porta do elevador, achou estranho o amontoado de pessoas à porta do seu prédio, como se estivessem a resguardar-se de uma chuva que não acontecia. Muita gente calada. O fumo aqui era tão denso que não deixava descobrir as suas caras, subindo numa grossa espiral negra e densa que depois se misturava com o cinzento da atmosfera.
Foi com alguma dificuldade que X ultrapassou com o seu cão esta horda de gente estranha e ameaçadora. Mas ao fazê-lo reparou que todos eles tinham umas estranhas luzinhas vermelhas nos dedos e que as levavam à boca, em movimentos rápidos e quase simultâneos.
X viu que eram cigarros. Simples cigarros. Ao olhar em redor viu diversos grupos, de costas voltadas para o exterior, fumando os seus cigarros como se fosse o último pecado nem assim tão original.
Toda a gente o evitava olhar, passando rapidamente com a cabeça baixa, com um chapéu bem puxado para a frente. Alguns alarmes tocavam em pequenos cafés e estabelecimentos comerciais e era só uma questão de segundos para ver gente atrás de um fugitivo, a agarrá-lo, a atirá-lo para o chão e pontapeá-lo.
Logo a seguir surgiu uma carrinha da nova força policial especial para o combate a este crime. Dela saíam soldados armados como no Iraque e com máscaras anti-gás. Um minuto depois atiravam o criminoso encapuçado, atado, semi desmaiado para dentro da carrinha.
Uns quantos populares gritavam urras de satisfação e reentravam nos estabelecimentos. Os pequenos grupos que se viravam de costas nem se mexiam e já tinham há muito apagado qualquer vestígio dos seus crimes.

Passadas semanas, o pânico tinha-se instalado na cidade. Pessoas corriam para se proteger de algum bufo, escondiam-se nas esquinas, nas entradas dos prédios. O céu de Lisboa estava cada vez mais negro e as sirenes tocavam e passavam por todo o lado.
O Verão chegara, mas o sol não.
As outroras maternidades, hospitais e urgências que o governo tinha fechado, serviam agora de prisão para os cada vez mais condenados. Alguns crimes mais violentos iam sendo cometidos, como por exemplo, o roubo de máquinas de tabaco em vez de caixas de multibanco.
O governo, sempre disposto a ajudar drogados com metadona e kits especiais, recusava baixar os impostos e nem dava desconto nos tratamentos anti-tabágicos, pois essas receitas eram cada vez mas necessárias.
Mas este Verão cinzento e sem sol trouxe uma outra novidade: a falta de turistas, a falência das cervejarias e cafés com esplanada, da indústria de gelados. O “vá para fora cá dentro” depressa foi esquecido e em apenas um ano Portugal perdeu 83% das receitas turísticas.
Novas equipas de limpeza urbana tiveram que ser criadas para limparem as ruas dos milhões de beatas acumuladas, a maior parte atiradas dos prédios ou de carros em movimento. As sargetas estavam entupidas.
Os barcos não cruzavam o Tejo, pois os motores não tinham força para abrir caminho entre todo o lixo amarelo e branco.
Portugal faliu, as indústrias fecharam, os caminhos estavam obstruídos, não havia água nem electricidade e aos poucos, os lisboetas abandonaram a sua cidade e rumaram ao campo, às vilas abandonadas, à desertificação que já tinha sido esquecida.
Aí tiveram que aprender novos ofícios, como caçar, pescar, fazer roupa da pele dos animais, lareiras que os aqueciam pela noite, troca directa e afins…
O céu era azul e eles finalmente viviam num ar livre, livre, livre.

Advertisements

Leave a comment

Filed under Uncategorized

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s