Acordem

Esta é a aventura de um rapaz a quem deram uma viola no aniversário. A sua felicidade foi notória assim como o seu desaparecimento, ou seja, fechou-se no quarto horas a fio. Diariamente esquecia-se das refeições e nem a mãe tinha esperanças que ele comesse se o prato lhe fosse dado no quarto.
O pai culpou-se de ter dado a prenda ao filho, mas os amigos que lá iam beber um copo ou jantar, silenciavam-se para ouvir a já extrema técnica do rapaz, mesmo com o som abafado pelas portas fechadas.
Nos anos vindouros, o rapaz emagreceu e deixou que o cabelo lhe caísse já pelas costas. O aspecto não era grosseiro, pois ele tinha feições bonitas, mas já parecia uma daquelas estrelas de rock que animam as plateias quando mexem a cabeça ao ritmo da batida.
Entretanto, o rapaz tinha poupado todas as mesadas que lhe eram dadas e o total dava para comprar uma guitarra eléctrica e um amplificador. Os sons e melodia suaves deram então lugar a virtuosos solos. A guitarra chorava, gania, gritava e acompanhava os discos que o rapaz ia colocando para tocar por cima.
Os pais, rendidos, propuseram-lhe a ida a um concurso de novos talentos, o que aconteceu e onde a plateia e o júri ficaram silenciados com tamanha genialidade. As palmas começaram tardiamente e solitárias, até se transformarem numa ovação de muitos minutos.
Os convites de bandas e novas bandas surgiram às dezenas, toda a gente queria trabalhar com o rapaz. Mas este só queria tocar a sua guitarra dentro do seu próprio mundo e cabeça.
Por fim, aceitou gravar um disco numa grande editora que foi distribuído por todo o mundo e que vendeu milhões.
O rapaz estava rico. Muito rico.
Finalmente os pais conseguiram entrar no seu quarto para saber o que ele iria fazer com tanto dinheiro. Após pensar um pouco, respondeu que queria que os pais deixassem de trabalhar e que abrissem uma loja no bairro de instrumentos musicais. Os pais até acharam uma boa ideia, money makes money, tal e coiso. Mas o rapaz disse que não era para vender instrumentos, mas sim para dá-los a quem entrasse e mostrasse um interesse enorme por uma guitarra, um piano, um violino ou uma flauta.
Anos depois, alguns rapazes e raparigas que obtiveram o seu instrumento nesta loja, conheceram também a riqueza e o génio.
E também eles abriram lojas, estúdios, escolas, teatros e agências de management.
A cidade mudou para melhor, os direitos recebidos criavam novos hospitais e campos universitários.
Até que aconteceu a desgraça. O rapaz, num dos seus mais fantásticos solos, rebentou uma corda. No meio de tanta genialidade ele não sabia mudar as cordas da guitarra.
E nunca mais tocou.

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