prisão

Esta é a aventura de um homem que perdeu quase tudo na vida. Só restava a imaginação e mesmo essa falhava de vez em quando. Escrevia peças sobre variados temas para publicações que lhe permitiam pagar as contas e alguns, raros, mimos pessoais. Escrevia tudo em pequenas sebentas de folhas lisas e já tinha uma colecção grande delas. Estavam arrumadas por ordem numa pequena gaveta, longe do pó e de olhares curiosos.
Houve um dia em que teve que comprar uma nova sebenta mas, por qualquer motivo, as suas preferidas, lisas, estavam esgotadas em todo o lado. Teve que contentar-se com uma quadriculada o que lhe causava uma certa confusão.
Abriu-a na primeira página ímpar onde escreveu os seus dados pessoais, passando depois para a seguinte ímpar. Só escrevia nas ímpares, como muito boa gente.
O que se passou a seguir deve ter acontecido devido à quadrícula. Não havia nenhuma outra explicação. Começou por desenhar uns bonecos até ter a ideia para uma peça encomendada. De repente, os bonecos tomaram vida própria e, para seu espanto, começaram a tentar saír da folha.
Mas a quadrícula, tal e qual as grades de uma prisão, não permitiam tal liberdade. O homem pensou e saíu à rua desesperado para tentar comprar uma sebenta de páginas lisas. Após horas, lá conseguiu encontrar uma e correu para casa. Juntou as duas e desenhou um caminho na primeira com uma saída para a folha lisa da nova sebenta. Uns instantes depois, os bonecos conseguiram saír da sua prisão. Estavam finalmente livres e com espaço para viver e respirar.
O homem ficou aliviado. Olhou para a sua casa e imaginou-a como uma quadrícula. Percebeu finalmente que estava numa prisão. A sua prisão. Decidiu vendê-la e quando o conseguiu, agarrou em algumas tralhas e guardou-as em casa de amigos. Com uma mochila, alguma roupa e várias sebentas novas, decidiu apanhar um comboio. O destino não era importante. Ele sabia que tudo iria dar certo outra vez.
Passado um ano escreveu aos seus amigos. Estava longe, num continente afastado. Estava a fazer o que mais gostava outra vez. E tudo era perfeito… como uma quadrícula.

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