pivot

Esta é a aventura de um jornalista que conseguiu subir no canal televisivo onde trabalhava até ser pivot de telejornal e, também, editor do mesmo. Todos os dias ele encarava as piores notícias, todos os dias as dava aos teleespectadores, todos os dias chegava a casa transtornado, doente e incapaz de fazer qualquer coisa a não ser sofá surfing e zapping, tal e qual muitos vizinhos e restante população.
Mas houve um dia em que tudo mudou. Acordou diferente, foi para o emprego e decidiu não dar uma única má notícia. Escolheu coisas boas, dignificantes para a raça humana, historias bonitas e finais felizes. Mal o noticiário terminou, foi chamado ao patrão, um conjunto de figuras sinistras escondidas em grandes cadeirões e afastadas entre elas por uma enorme mesa de reuniões. Não estavam felizes. Pelo contrário. Mostraram-lhe os dados da audiência, provando-lhe que a sua ideia tinha sido um fracasso colossal. E concluiram dizendo que, se ele mantivesse essa nova linha editorial, estaria na rua em menos de uma semana.
O jornalista, com dois filhos e casa + carro + créditos + mobiliário + electrodomésticos + seguro + alimentação + etc para pagar, sentiu-se encurralado. Tinha-se sentido muito bem ao fazer aquele noticiário. E, quiçá, teria conseguido que alguém, do outro lado, se tivesse sentido melhor que nos outros dias.
Decidiu.
No dia seguinte, iniciou as notícias com peças bem dispostas. Pelo auricular, o realizador gritava que parasse, pois no seu próprio auricular estava um produtor aos berros cujo auricular estava ligado ao patronato.
O jornalista foi despedido em menos de uma semana.
Durante uns dias ficou a fazer sofá surfing e zapping. Até que o telefone tocou. Era uma senhora que lhe transmitia os parabéns por se ter sacrificado. Mal desligou, o telefone tocou outra vez. E assim continuou durante todo o dia. E toda a noite. O canal televisivo foi inundado por cartas de reclamação, pedindo o regresso do generoso jornalista. Passada uma semana, houve manifestações, artigos de opinião, especiais informativos nos outros canais.
A concorrência começava a entender que tinha ali uma possibilidade para conseguir mais audiências e criou os seus próprios tele-jornais bem dispostos.
Passados uns meses, o jornalista foi convidado a reingressar no seu canal, com o seu produto.
Preparou-se afincadamente para o regresso e, no dia em que chegou à porta das instalações, foi morto a tiro.
Os tele-jornais bem dispostos da concorrência iniciaram esse dia com a terrível notícia.

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