fotografia

Esta é a aventura de um homem que, embora tenha sido amado, nunca viveu a paixão avassaladora de um primeiro olhar ou de um primeiro toque mais ou menos fortuito. Este homem refugiava-se no trabalho, era um notável profissional e admirado por todos. Mas, chegando a casa, só tinha por companhia o seu casal de gatos que também pouco lhe ligavam.
Tinha amigos e amigas. Estas tentavam tudo por tudo encontrar-lhe um par, oferecer-lhe a paixão, convidá-lo para a vida. Mas por medo de falhar ou com a certeza de ter medo e falhar, este homem encontrava sempre desculpas para evitar encontros pré-marcados. E assim ia sobrevivendo.
Contudo, houve um dia em que viu uma fotografia de uma mulher que acompanhava aventuras de uma amiga. Olhou muito tempo esta fotografia, mas nunca para a amiga. Encheu-se de coragem e pediu-lhe mais fotos em que a tal criatura estivesse presente. A amiga fez-lhe a vontade e enviou-lhe uma dezena de fotografias. Uma a uma, o homem foi-se apaixonando. Pelos traços, pelos olhos, pelas posições, sorrisos e possíveis afectos. Pela tez morena, pelo cabelo negro, pelos abraços com que rodeava quem estava também na foto.
Como seria possível esta paixão? Como seria possível este encontro? O homem sorria. Sentia. E ansiava. Mas quanto mais se apercebia do seu estado, mais receios ia construindo, mais muralhas e medos. Se calhar não estava toldado para viver uma paixão. Se calhar a sua vida teria que passar ao lado de uma fotografia.
Quando finalmente aconteceu o encontro, já ele tinha vestido uma armadura intransponível, ciente e certo que essa era a sua melhor defesa para os seus próprios sentimentos não o ferirem.
Mas os milagres acontecem e a mulher da fotografia ficou curiosa. Muito curiosa. Trocaram contactos. O tempo ia passando, a armadura não desarmava. O homem começou a evitar, fugindo para os seus gatos e para o seu trabalho que fazia até à exaustão.
Desapareceu de tudo e todos, inclusivé da sua amiga.
Uns anos depois reencontrou a mulher. Esta já estava casada e com filhos. Olhou-o e disse-lhe que o tinha amado apaixonadamente. Mas que o mundo anda depressa. Demasiado. Pediu-lhe desculpa e seguiu o seu caminho.
A armadura do homem partiu-se em mil pedaços, cacos que permaneceram no chão enquanto ele a olhava a afastar-se. Estava, finalmente, pronto para viver.

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