virtualidades

Esta é a aventura de um homem que criou toda uma entidade na internet. Tinha sites, blogs, nicknames, Hi5, myspaces, enfim, tudo e mais alguma coisa. Passava a vida agarrado ao computador, aguardava que os seus muitos contactos surgissem para uma converseta no messenger, via filmes pelo computador e ouvia música da mesma forma.
Trabalhava na construção de sites, o que lhe permitia estar sempre ao… computador.
Os anos foram passando e a sua entidade física era esquecida a pouco e pouco por toda a gente que tinha conhecido ao longo da sua vida. Para conseguir contactá-lo, ou era por email ou por msn. Ou então através de comentários nos seus diversos blogs.
Não foram raras as vezes que se apaixonou online. Mas dessas, só ainda mais raras vezes é que teve a sorte de conhecer fisicamente o outro lado. E, como seria de esperar, as coisas não aconteciam como num conto de fadas.
Decidiu então comprar uma Real Doll. Assim os seus desejos mais carnais seriam mais ou menos satisfeitos. Naturalmente, dentro de casa. Naturalmente, sem compromisso e sem desventura.
O tempo foi passando até que ele foi esquecido pela vida real. Foi envelhecendo e ficando corcunda. A sua pele estava velha, os seus olhos gastos. Os pulsos esgotados, os dedos quase quebrados.
Sem se aperceber, já estava ligado fisicamente tanto à cadeira como às máquinas. O seu corpo tinha criado raízes, estava cada vez menos perceptível e, tal como uma árvore, cada vez mais estático e adormecido.
Nunca mais ninguém o viu até ao dia em que também desapareceu do mundo virtual. Alguns contactos dele acharam demasiado estranha esta ausência e combinaram ir ver o que se passava.
Quando chegaram a casa dele, foi necessário arrombar a porta. À porta da sala onde estava o computador, espantaram-se com um cenário grotesco. O homem confundia-se com tudo onde tocava. Já não era humano, mas também não era máquina. Não estava morto nem vivo. Tudo era uma massa disforme, transformada e distorcida.
Abandonaram a casa em pânico. E cada um deles, ao chegar às suas, destruíu os computadores e tudo o que lhes estava associado. Encontraram-se dias depois, num acaso perfeito, bebericando umas imperiais numa esplanada cheia de sol. Ninguém falou. Não era necessário.

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