êxodos

Esta é a aventura de um homem citadino, ultra-urbano e que sempre viveu no meio da confusão, ruído, vivência social, oferta em escala e tudo o mais.
Um dia, acordou como em todos os outros dias e sentiu uma enorme vontade de mudança. Vendeu a casa, agarrou nas malas e viajou pelo interior. Chegou a uma terra bonita, pequena e arrumada, limpa e arejada e gostou de ser cumprimentado por todos os locais.
Primeiro deu uma volta. Depois, a pé, caminhou por entre as ruas até que descobriu o seu novo lar. Não houve intermediários e o dono até lhe facilitava a vida com um “quando quiser paga!”.
Entusiasmado, trouxe os móveis, os tarecos e as suas tecnologias para esta enorme casa, um t3 com jardim, cuja sala tinha 80m2, lareira e um curioso desnível, com dois degraus, para a perfeita colocação de sofás para longas tertúlias e bons filmes.
Os primeiros tempos foram ricos em aventuras, primeiro em longos passeios, depois no convívio com as gentes da terra, o encontro de fornecedores de legumes, pão fresco, leite e tudo o que fosse necessário, duas ou três raparigas interessantes, esse tipo de coisas. A internet facilitava-lhe o trabalho e evitava deslocações à capital. Poupava dinheiro, tudo era mais barato e de melhor qualidade. Claro que não existiam as lojas e os produtos que ele tanto gostava, mas também pouco se ralava com isso.
O tempo foi passando e a sua diferença para os demais começava a fazer-se notar. Já não era a novidade e já nada era novidade para ele. O silêncio começava a adormecê-lo. A pacatez da vila também. Os bares eram estranhos e a música que passava nas discotecas ia do mau tecno à maior saloidada e pimbalhada.
A solidão, por fim, surgiu. Os amigos já não apareciam aos fins de semana como antigamente, pois tinham a sua vida. A falta de tertúlias, gargalhadas e jantaradas com pessoas da mesma vivência e memórias causava mossa.
E foi antes do desespero que o homem decidiu jogar a vida na sorte. Comprou uma taluda e, por incrível que pareça, deu-se bem, ganhando um milhão de euros.
Com essa quantia, comprou 25 casas ao pé da sua. Equipou-as com as últimas tecnologias, decorou-as com extremo bom gosto e, depois de tudo, foi à sua cidade falar com os amigos e amigas que já não via há uns tempos.
A proposta era irrecusável e muitos mudaram-se para a vila. Como eram boas pessoas, foram bem acolhidos pela população local e todo um novo reboliço transformou a outrora pacata vila num centro de lazer, artes, cultura, tertúlias, comércio e indústria. A vida mudou e os ex-urbanos estavam felizes. O homem nunca mais esteve sózinho e o seu caso foi estudado por jornalistas, a sua vida documentada no canal Bio e em livros sobre personalidades de sucesso.
O problema foi quando o homem percebeu que as gentes da vila, fartas de tanta coisa nova, começaram a ir embora, abandonando a sua terra e os seus afazeres.
Muitos deles foram mesmo para as cidades, também desertas devido ao enorme êxodo dos seus habitantes para vilas no interior, em busca do segredo para a felicidade que o homem tinha encontrado anos antes.
Só que ninguém estava verdadeiramente feliz e o governo viu-se obrigado a combinar um grande debate entre as duas partes. O objectivo era trazer de volta as gentes para as suas terras e culturas. Todos apareceram.

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