casa

Esta é a aventura de um homem que viveu uma aventura quando mudou de casa. Tinha x dinheiro e pediu a uma vendedora que lhe comprasse um Tê qualquer, com vista desafogada e, caso fosse um andar alto, elevador. Não lhe interessava saber mais nada. Queria entrar na nova casa como se fosse um estranho. Queria conhecê-la como virgem, descobrir os seus recantos mais íntimos, os seus esconderijos mais úteis. Ao fim e ao cabo, pensou na nova casa como se fosse uma mulher e este seria o seu primeiro blind date.
A vendedora achou o pedido estranho. Afinal, tratava-se da compra de um bem muito caro, mas assumiu a responsabilidade e fez o seu melhor.
Passados uns meses, foi marcada a escritura e depois desta, passou-lhe as chaves para a mão, com um papelinho onde estava descrita a morada e algumas curiosidades sobre a vizinhança.
O homem estava entusiasmado. Olhou para as chaves e apertou-as com força. Não reconheceu a morada. Nunca tinha ouvido falar da rua e chamou um táxi.
A rua era estreita, numa das colinas de Lisboa, o que não lhe agradou à partida. Mas o prédio nº5 estava em boas condições, recentemente limpo e pintado. As escadas interiores tinham sido recuperadas e o verniz brilhava como se fossem novas. Subiu até ao primero andar e viu que a porta era das antigas, com aquela pequenita janelita com gradeamento que dá para espreitar quem lhe toca. Meteu a chave e abriu-a.
A primeira sensação foi estranha. Não estava à espera de uma sala tão grande, com um pé direito fenomenal e tecto trabalhado. Duas portadas deixavam entrar a luz quente do final de uma tarde de Verão. Aproximou-se delas e olhou longamente para as janelas dos seus vizinhos.
Há uma coisa interessante sobre os vizinhos. A maior parte dos inquilinos pensa que os seus vizinhos são quem mora no mesmo prédio, porta com porta, degrau a degrau, mas essa é a maior mentira das cidades. Os vizinhos reais são aqueles que habitam o prédio em frente do nosso, cuja janela lhes abre a vida para a vermos e vivermos. Ou então, os que habitam os prédios das traseiras, cujas varandas ou marquises mostram a roupa que foi lavada ou o que se come na cozinha. O homem estudou ambos os lados. A vista desafogada que pediu ficava atrás, onde se via o majestoso panteão e parte do rio. Não estava muito mal.
Passou umas horas a vaguear pelos quartos e cozinha. A casa de banho tinha hidromassagem e a arrecadação dava para guardar muitas mercearias.
O homem ficou contente e telefonou à vendedora para lhe agradecer. Combinou que, passadas umas semanas, teria todo o gosto em lhe oferecer um jantar na sua nova habitação.
Ela respondeu afirmativamente e quando o dia chegou, apareceu bonita e com um sorriso rasgado. Afinal, tinha escolhido a casa para ela e agora só ansiava que o homem abrisse, não somente a porta, mas também o coração.

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