mudança

Esta é a aventura de um homem falso e cretino. Usava a desgraça dos outros para seu próprio bem e enriqueceu à conta disso. Mas era um agarrado aos trocos e fazia de tudo para não gastá-los, chegando ao ponto de num restaurante com ainda os poucos amigos que tinha, dividir o pão com manteiga na conta final.
Este homem geria muito bem a sua vida pessoal e profissional baseadas em mentiras. Dizia que era director de um conjunto de empresas mas que não existiam, que tinha uma mulher fantástica mas alugava-a à hora numa agência de hospedeiras, etc.
Tudo corria bem até que um dia se apaixonou e ficou maluco. Começou a gastar o dinheiro em prendas para a rapariga, comprou umas roupas mais catitas e até um perfume, pagou aulas num ginásio e chegou ao cúmulo de marcar um fim de semana num hotel.
A rapariga, que não falava português, engravidou. E o homem viu-se numa situação totalmente nova para ele: estava menos ganancioso e egoísta e só pensava no futuro rebento.
Os amigos aplaudiram esta mudança e o homem sentia-se bem com o mundo pela primeira vez na vida. Decidiu até ir visitar a mãe que não via há uns 10 anos, uma velhota desterrada numa terra abandonada lá para os lados de Sabúgal. A mãe, feliz como nunca o tinha sido, disse-lhe que “quem casa quer casa” e que o netinho tinha que ser bem cuidado e tratado porque “as crianças são a melhor coisa do mundo”.
Regressado a Lisboa, o homem decidiu investir numa casa. Durante a sua vida conseguiu ter uma boa conta poupança e os 120.000€ disponíveis davam para isso. Procurou durante muito tempo até que encontrou uma verdadeira pechincha, um bonito T2 todo reconstruído no quinto andar de um prédio de quatro sem elevador. Casou com a pequena e a família mudou-se num belo dia de Verão.
Com o Inverno chegaram as primeiras grandes chuvadas e a sua nova casa começava a mostrar alguns problemas. Muita humidade, frio e algumas infiltrações depois, o homem decidiu pedir a ajuda de um trolha para ver o que se passava.
O trolha chegou com mais um trolha e ambos passaram a manhã a inspeccionarem o imóvel. Sairam para almoçar dizendo que iam aproveitar esse intervalo para escrever o orçamento. E assim foi. Regressaram pelas 14h com um papelito “sem factura pois com factura tinha que se meter mais uns cobres”.
O homem ficou lívido quando viu o total: 15000€!!! Mas “porquê, porquê?”
Os homens começaram a apontar os defeitos da casa: tudo era pladur, tecto falso, canalização medíocre, fugas de gás, telhas partidas, etc. Não havia uma parede que não tivesse problemas graves, mas como estava embelezada, nada se via. “Uma porcaria”, concluíram.
O homem deixou-se caír no sofá. A sua casa era o reflexo da sua vida. Tudo era bonito por fora mas falso por dentro…
Ainda hoje está sentado.

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