engodo

Esta é a aventura de uma aldeia portuguesa, daquelas pequenitas e votadas ao abandono quer pelas suas gentes como pelas outras que tinham poder para evitar esse processo.
Os poucos habitantes que restavam viveram problemas sociais e económicos complicados. Viram o estado tirar-lhes a escola local, o centro de saúde, o comboio e os serviços municipais foram reduzidos para um mínimo impensável.
Havia nesta aldeia gente de brandos costumes, de boa fé, de amizade a toda a prova e com um sentido de comunidade raro. Mas eram cada vez menos.
Até que surgiu uma família jovem lá da cidade. Estavam fartos da confusão e stress, dos preços de tudo, da loucura reinante, da poluição e da falta de qualidade de vida.
Traziam dois filhos e a escola não reabriu. Um dos putos ficou doente e não havia um médico num raio de 50 kms. Queriam abrir um novo espaço para turismo rural de qualidade, mas os entraves eram mais que muitos. Enfim, tinham mais problemas do que quando sobreviviam na cidade.
O rapaz, no alto dos seus 40 anos, tinha sido um empresário com algum sucesso e tinha feito amigos em pontos diversos e estratégicos. Depois de falar com a mulher, decidiu apresentar uma proposta aos 18 habitantes que restavam. Estava na hora do mundo olhar para eles e não o contrário.
Os habitantes ouviram com atenção a ideia e não a perceberam. Mas tiveram vergonha de perguntar o que era uma central nuclear e resíduos tóxicos. Contudo, a fortuna que a sua aldeia ia receber pela venda de energia limpa, foi o argumento que os fez decidir positivamente.
Passado um tempo, a bomba estoirou! Toda a comunicação social falava do plano para a construção da central naquela aldeia. Inúmeras equipas de jornalistas surgiram como pombos, com eles as roulotes de couratos e bifanas, um circo, motards e muita muita gente, principalmente de esquerda e verde. Aconteceram acampamentos, protestos, intervenções policiais. A aldeia era agora o centro de toda uma Europa interessada na conclusão do processo e de milhares de jovens de 40 anos que esperavam para saírem das suas cidades com rumo a aldeias incógnitas.
Aconteceram debates públicos e privados. Reuniões de estado. Discussões sobre os prós e contras. Enquanto isso, parte das pessoas que estavam na aldeia para defender os seus ideais, arrendaram casa porque o processo ia demorar muito tempo, alguns tascos reabriram, assim como a farmácia que estava encerrada. Toda uma equipa médica surgiu no antigo centro de saúde, a polícia destacou agentes, foi criado um jornal online e em papel de distribuição gratuita, e como por milagre, antigos habitantes regressaram com as suas famílias o que obrigou à reabertura da escola.
O rapaz de 40 anos sorriu. Tinha sido esse o plano e nunca o da construção de uma central de energia.

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