cafés




Esta é a aventura de um café que abriu por volta de 1950 num bairro moderno de Lisboa. Ficava numa esquina redonda e tinha uma vitrine para cada rua, o que lhe conferia um estatuto central. A renda começou nos cinco mil reis, puxado para a altura, mas que de bom grado era paga todos os meses até dia oito.
O café era conhecido por muita gente, pois servia de ponto de encontro para a rapaziada, salão de chá às cinco da tarde para a velhada, vendia bolos para fora e até fiambre e queijo a peso.
Este café viveu bons momentos e fez a fortuna do seu arrendatário. Mas também perdeu jovens clientes no Ultramar, velhotes que se finavam naturalmente e até empregados que partiram em busca de um maior vencimento em terras gaulesas. Contudo, era cada vez mais conhecido e preferido pela malta do bairro e dos seus amigos de outros bairros.
Nos anos 70 viu-se meio privilegiado para a troca de segredos e bilhetes, ordens e contra-ordens. Recebeu a polícia várias vezes que prendia alguns elementos reaccionários na esplanada. Ninguém ousava apupar ou mesmo confrontar a ordem.
Nos anos 80 passou a ser a segunda casa de músicos, artistas plásticos, pintores, escritores e leitores. E putos dos liceus circundantes que queriam ser mas velhos e adoravam estar entre os mais velhos. Os anos 80 foram feitos de tertúlias, de fé e esperança, de acordar e ousar.
Até que chegaram os 90. Nessa altura já era o filho do arrendatário que controlava o serviço, a caixa e o guarda-livros. Mas a construção próxima de um mega centro comercial metia medo a todos, principalmente porque havia uns iluminados que diziam e apostavam que este local seria uma cidade dentro da cidade. Após a inauguração e pela primeira vez em 40 anos, o café deixou de ter clientela, a não ser uns quantos, mas poucos, fiéis. Começaram os problemas com ordenados em atraso, dívidas a fornecedores, à SS e fisco.
Depois aconteceu outra tragédia, com a construção e abertura de mais uns quantos centros comerciais pela cidade fora. A certidão de óbito era desta forma passada a este café e a quase todo o comércio do bairro. As pessoas preferiam passear artificialmente, comprar com crédito, ir ao supermercado e ao ginásio e ao cabeleireiro debaixo do mesmo tecto.
O café, fechado, foi arrendado a uma croissanteria. Depois a uma loja de bijuteria, depois a um banco, depois a uma loja de 300, depois a uma loja de 1,5€, depois a um restaurante chinês e depois fechou outra vez, pois no bairro só viviam mesmo velhotes porque a malta nova tinha sido obrigada a mudar para os subúrbios.
Adivinhava-se um ponto final na tragédia, mas o milagre aconteceu.
O neto do primeiro arrendatário, talvez movido pela honra do nome, pela noção de história, pelo amor ao bairro ou qualquer outro sentimento nobre, vendeu tudo o que tinha e pediu um reforço bancário. As obras, profundas, começaram com papéis nos vidros que atraiam mas não satisfaziam a curiosidade local.
E num glorioso dia no meio da primeira década do segundo milénio, as portas reabriram com uma grande festa. O café era agora todo um esplendor de cor, luz, produtos gourmet, mobiliário moderno misturado com antiguidades, empregados jovens vestidos com roupa assinada por alguém, pratos específicos e nada baratos, tudo muito moderno mas com bom gosto.
Na parede restava de tempos idos a fotografia da primeira abertura, com toda a gente sorridente.
Ao lado estava um espaço para uma outra, de agora, para toda a gente sorridente.
E a sorrir também ficaram os antigos clientes. Os menos velhos que regressavam quase diariamente já com os filhos e filhas. Toda uma nova geração.
Murmurava-se também que o grande centro comercial estava a fechar. Muitas lojas já nem existiam. E, de certeza, que isso aconteceria com todos os outros.

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