juizo

Esta é a aventura de um português com inteligência acima da média. Quis ser advogado e depois juiz, pois era um homem justo, sério e pacífico. A vida universitária não lhe foi fácil, tendo sido alvo de galhofa pelos alunos mais antigos e repetentes, assim como de escárnio pelas mais belas das mais belas que gostavam era dos repetentes e dos mais antigos.
Contudo, tirou o curso com notas acima da média, o que lhe garantiu facilmente um estágio numa das grandes e nomeadas firmas lisboetas. Ao fazer o trabalho de escravo, como recados para os doutores e cafés para o secretariado, percebeu que o seu objectivo de vida tinha sido a única opção possível para conseguir fazer justiça à sua vida e também à dos outros infelizes como ele.
Após penar uns anos, fez mais cursos e especialidades e, finalmente, lá conseguiu ser um senhor doutor juiz. A primeira vez que se sentou na cadeira central e teve o martelo à mão, levou logo com um caso muito em voga, ou seja, assaltantes de bancos. Tinham sido apanhados em flagrante, mataram um refém, duas pessoas que iam a passar na rua, albarroaram dois carros da polícia, feriram três agentes e atropelaram uma fila de crianças que iam de mão dada a atravessar a passadeira. Seria um caso fácil, pensou, prisão perpétua para os malfeitores. Mas não! À luz do novo código penal, os transgressores eram uns santos para quem, coitados, a vida tinha pregado rasteiras o que lhes criou desespero e tal e coiso. O resultado foi normal: os ladrões assassinos foram para casa com sinalizadores nas pernas.
O homem já juiz ficou atordoado. Não dormia. Nem sequer conseguia pensar. Os casos seguintes, todos eles graves, eram tratados e resolvidos da mesma maneira. Os ladrões, assassinos, violadores e terroristas iam para casa, os coitados dos empresários afogados em dívidas ao fisco iam dentro, assim como os parvos que não pagavam a emel e aquele caso extraordinário de uma velhota esfomeada que viu a sua vida arruinada por ter roubado um iogurte num supermercado.
O homem estoirou. Pediu licença sem vencimento e foi para casa. Pensou bastante sobre a sua vida. E sobre a dos outros. E chegou a uma conclusão: passaria a ser ladrão, roubaria quem enriqueceu à conta dos parvalhões, assaltaria informaticamente as grandes empresas que em tempos de crise não tinham vergonha de mostrar lucros que nunca poderiam ser honestos, etc e etc. Portugal é um oásis para ladrões deste calibre, concluiu.
E assim começou toda uma nova vida em que, finalmente, seria feita alguma justiça.

Advertisements

Leave a comment

Filed under Uncategorized

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s