emblema

Esta é a aventura de um carro alemão, de grande gabarito e panache, idolatrado e desejado por muitos portugueses, ávidos por mostrar aos vizinhos e amigos o seu emblema. Este carro foi comprado por muito dinheiro, 12 créditos bancários e levou a família à inexistência social, pois o dinheiro ia todo para ele. Este jovem casal que participava nas festas socialite portuguesas, gostava de aparecer nas revistas que de rosa nem cor têm, gastava muito dinheiro em roupa e acessórios e nos restaurantes da moda, viu-se assim com um emblema na rua, mas sem nada para comer, nada novo para vestir e, tragédia das tragédias, nenhuma possibilidade para continuar a sua dourada vida.
No mesmo prédio e como vizinho de andar, habitava um homem já vivido no alto dos seus 40 anos. Ele também tinha tido emblemas, mas nesses anos de trabalho dourado, comprava a pronto. Com a crise instalada no país e, logicamente, na sua vida profissional, viu-se obrigado a adquirir um carro semi-novo, daqueles japoneses que duram uma vida e gastam pouco. Servia para as deslocações, algumas viagens e era meter gasolina e andar. O homem sentiu o ar de manifesta superioridade do casal jovem que demorava bastante tempo a estacionar o veículo emblemático nos primeiros dias de comunhão. Mas apercebeu-se que o carro saía raramente do seu lugar.
Este homem, nas grandes jantaradas que gostava de oferecer aos seus amigos, questionava o que realmente era importante na vida dos portugueses. Se o meio de transporte, se o emblema que esse meio trazia colado. Alguns diziam que gostariam de ter um modelo do tal emblema, outros estavam-se nas tintas e, pasme-se, outros até nem carro tinham, preferindo pagar as corridas a um chauffeur de circunstância. Estes jantares bem comidos e bem regados, acompanhados por excelente música debitada pelo amplificador e colunas britânicos, duravam horas tertúlianas de boa disposição. Vivia-se bem, comia-se melhor e saboreava-se desde o Douro ao Alentejo com conhecimento e grande prazer.
No apartamento do lado, sem conseguir dormir com a desculpa do barulho da casa do vizinho, o jovem e ex-promissor casal rosa e social olhava para o emblema estacionado na rua, comendo directo de uma lata de atum e bebendo, para afogar as mágoas, duas bem fresquinhas minis.
O carro, esse, apodrecia as borrachas novas, os acabamentos superiores e os pneus racing.
Tinha nascido para devorar quilómetros com grande destreza, mas só tinha essa alegria aos fim de semana… e devagarinho, bem devagarinho.

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