Esperanto

Esta é a aventura de um homem que passou toda a vida a ser boa pessoa. Teve e tem amigos, teve e tem inimigos, vá-se lá saber porquê. A vida até nem lhe foi madrasta. Colheu frutos das suas opiniões e tornou-se num cronista de sucesso. Com as crónicas ficou famoso no circuito dos intelectualóides e, sabendo que não era um deles, andou por ali colhendo mais frutos para um passo seguinte. Esse aconteceu quando um editor lhe propôs uma aventura editorial. Era um conceito engraçado: um jornal diário com um especial semanal e um super especial mensal. Tudo em um, um em tudo. A publicação colheu todos de surpresa, até mesmo aquela gentalha que se auto-intitula crítico de qualquer coisa. O bota abaixo tão tradicional neste cantinho, demorou a acontecer. Os velhos de Restelo não sabiam o que opinar. A concorrência quase directa, porque não havia outra, tentava encontrar resposta à altura, porém sem sucesso.
A publicação tornou-se conhecida além fronteiras e o editor, na reunião anual de objectivos e essas merdas, propôs uma edição bilingue. Francófono de raiz, queria francês/português. O homem queria inglês, como língua actual e de futuro e nada morta, como a outra.
Foi um acordo difícil e só aconteceu quando o homem teve a ideia de fazer a revista em Esperanto. Todos se entreolharam, mas lançaram-se à obra. A primeira edição bilingue estava a ser feita quando os pedidos de todo o mundo exigiram uma maior tiragem. Esgotou numa hora.
Lá fora, ninguém sabia falar Esperanto e muito menos português. Abriram escolas por todo o lado. Os cursos eram um sucesso e, passado um ano, meio mundo dominava a outrora universalidade.
Isto deu lugar a toda uma mudança na relação entre povos e nações pois, de repente, todos se entendiam o que mesmo com o inglês não acontecia.
O homem estava orgulhoso, mas sabia que o seu caminho nesta publicação tinha atingido o auge e estava na altura de mudar. O seu editor não aceitava, os seus colaboradores não entendiam.
O homem só queria continuar a ser boa pessoa e perseguir alguns sonhos que tinham ficado para trás. Era um desejo normal para um sujeito normal.
A luta foi árdua para sair do mundo que entretanto criara mas conseguiu encontrar e formar gente capaz para lhe tomar o lugar.
No primeiro dia de liberdade, sorriu satisfeito para um estranho.
Levou um tiro.
Levou outro.
E ainda mais outro.

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