Ano novo

Esta é a aventura de um ano novo, pequenito, imberbe, descalço, desorientado. Apareceu numa noite de chuva. Estava lixada a noite, molhada, demasiado molhada. O ano novo ficou cheio de frio e tentou encontrar algum ano que lhe desse guarida. Nenhum ano passado lhe abria a porta. Estavam furibundos pois o seu tempo tinha passado e não era um jovem parvo que lhes tomaria o lugar por dá cá essa palha. O ano novo continuava a deambular, tentando apanhar um toldo, um parapeito, um varandim mas todos recuavam. Todos lhe tiravam o capote. Afinal este ano novo é diferente dos anteriores. É mau. Vai trazer penúria, crise, fome, desemprego. O ano novo não sabia disso nem queria saber. Só desejava um sitio quente e seco para poder pernoitar e estar em toda a sua glória daí a umas poucas horas. Tinha esperado 364 dias por isto. Tinha sido formado, ensinado, educado. Sabia o que era sol e chuva, vento e frio, calor e humidade, geada e brisa. Sabia as Estações. Sabia o Borda d´água. Sabia até que tinha 364 dias de vida até perecer.
Só não sabia que os homens tinham medos antigos. E que não pensavam por si próprios.

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