Timing

Esta é a aventura de um homem que ficou parado no tempo.
Não à espera dele, mas nele. No próprio tempo.
Pela esquerda passava-lhe um tapete rolante do passado para o futuro.
Pela direita, do futuro para o passado.
O homem podia escolher uma qualquer direcção, assim como uma qualquer época, data, dia ou hora.
Mas com tanta possibilidade nunca se decidiu e foi por isso que ficou parado no tempo.
E ainda lá está.

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Ano novo

Esta é a aventura de um ano novo, pequenito, imberbe, descalço, desorientado. Apareceu numa noite de chuva. Estava lixada a noite, molhada, demasiado molhada. O ano novo ficou cheio de frio e tentou encontrar algum ano que lhe desse guarida. Nenhum ano passado lhe abria a porta. Estavam furibundos pois o seu tempo tinha passado e não era um jovem parvo que lhes tomaria o lugar por dá cá essa palha. O ano novo continuava a deambular, tentando apanhar um toldo, um parapeito, um varandim mas todos recuavam. Todos lhe tiravam o capote. Afinal este ano novo é diferente dos anteriores. É mau. Vai trazer penúria, crise, fome, desemprego. O ano novo não sabia disso nem queria saber. Só desejava um sitio quente e seco para poder pernoitar e estar em toda a sua glória daí a umas poucas horas. Tinha esperado 364 dias por isto. Tinha sido formado, ensinado, educado. Sabia o que era sol e chuva, vento e frio, calor e humidade, geada e brisa. Sabia as Estações. Sabia o Borda d´água. Sabia até que tinha 364 dias de vida até perecer.
Só não sabia que os homens tinham medos antigos. E que não pensavam por si próprios.

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Esperanto

Esta é a aventura de um homem que passou toda a vida a ser boa pessoa. Teve e tem amigos, teve e tem inimigos, vá-se lá saber porquê. A vida até nem lhe foi madrasta. Colheu frutos das suas opiniões e tornou-se num cronista de sucesso. Com as crónicas ficou famoso no circuito dos intelectualóides e, sabendo que não era um deles, andou por ali colhendo mais frutos para um passo seguinte. Esse aconteceu quando um editor lhe propôs uma aventura editorial. Era um conceito engraçado: um jornal diário com um especial semanal e um super especial mensal. Tudo em um, um em tudo. A publicação colheu todos de surpresa, até mesmo aquela gentalha que se auto-intitula crítico de qualquer coisa. O bota abaixo tão tradicional neste cantinho, demorou a acontecer. Os velhos de Restelo não sabiam o que opinar. A concorrência quase directa, porque não havia outra, tentava encontrar resposta à altura, porém sem sucesso.
A publicação tornou-se conhecida além fronteiras e o editor, na reunião anual de objectivos e essas merdas, propôs uma edição bilingue. Francófono de raiz, queria francês/português. O homem queria inglês, como língua actual e de futuro e nada morta, como a outra.
Foi um acordo difícil e só aconteceu quando o homem teve a ideia de fazer a revista em Esperanto. Todos se entreolharam, mas lançaram-se à obra. A primeira edição bilingue estava a ser feita quando os pedidos de todo o mundo exigiram uma maior tiragem. Esgotou numa hora.
Lá fora, ninguém sabia falar Esperanto e muito menos português. Abriram escolas por todo o lado. Os cursos eram um sucesso e, passado um ano, meio mundo dominava a outrora universalidade.
Isto deu lugar a toda uma mudança na relação entre povos e nações pois, de repente, todos se entendiam o que mesmo com o inglês não acontecia.
O homem estava orgulhoso, mas sabia que o seu caminho nesta publicação tinha atingido o auge e estava na altura de mudar. O seu editor não aceitava, os seus colaboradores não entendiam.
O homem só queria continuar a ser boa pessoa e perseguir alguns sonhos que tinham ficado para trás. Era um desejo normal para um sujeito normal.
A luta foi árdua para sair do mundo que entretanto criara mas conseguiu encontrar e formar gente capaz para lhe tomar o lugar.
No primeiro dia de liberdade, sorriu satisfeito para um estranho.
Levou um tiro.
Levou outro.
E ainda mais outro.

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Chaminé

Mr. X tentou comemorar o Natal à antiga. Ia estar com putos mesmo putos que ainda acreditam no sujeito e para quem a noite ainda é mágica. Combinaram-se pendas, embrulhos e local e pediram para que me vestisse de coca-cola e entrasse pela chaminé.
A subida para o telhado já em si foi complicada. Um tipo vestido com uma cena michelinesca com barbas postiças e a puxar um enorme saco com embrulhos fica, como dizer, um bocado lento e pesado. Mas lá se chegou.
O problema aconteceu com a chaminé por onde devia descer. Não tinha buraco, mas sim uma coisa metálica redonda que girava sobre si própria. Como então entrar nisto?
Mr. X não queria dar parte de fraco, principalmente depois de se ter esfalfado a subir até lá. Mas não havia solução à vista. As frinchas eram demasiado pequenas e estavam sempre a rodar. As prendas eram demasiado grandes para conseguir meter nos buracos, mesmo correndo à volta da chaminé.
Mr. X, após longas horas, foi batido pelo cansaço. Uma desorientação extrema. Uma tristeza imensa. Lá do telhado olhou os outros das casas vizinhas e viu um já muito velho e danificado de um casebre pobre. Algum fumo saía pela chaminé. Essa tinha buraco. Pela janela viu duas crianças que olhavam para uma lareira sem prendas ao lado…

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Caminho

Esta é a aventura de um homem que queria escrever uma aventura sobre o Natal. Pensou em todos os clichés, em todos os bonecos, em todos os presépios, em todos os cânticos. Olhou todas as iluminações, todas as árvores, todos os pais natal de plástico made in china que demonstram extrema facilidade em assaltar apartamentos e até indicam como. Pensou em todos os que têm grandes famílias e que fogem delas. Pensou nos que não têm ninguém mas que ficam até aliviados porque é apenas uma noite má. Pensou nos que ajudam toda a gente que precisa de carinho. E percebeu….
Esta é a aventura de um homem que gostaria de dar um abraço a todos aqueles que numa noite de crença e de dogmas, se fazem à estrada e às ruas e becos e dão um mimo, por mínimo que seja, a quem está mesmo sozinho nesta altura.
A todos vocês, caríssimas Pessoas, fica a aventura de quem sabe a vida e que para ela acordou mais cedo que todos nós.
Obrigado.

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Macro


A calçada à portuguesa revela os seus buracos, caminhos por entre as pedras com areia cimentada de lixo vário. Da sua brancura negra, um lancil de passeio. Pára-se e observa-se bem aquele bocado de qualquer coisa estranha. Não interessa e continua-se o caminho. Alcatrão, muito alcatrão. Aqui e ali alguns cagalhotos e restos de óleo de um motor com pouca saúde. Mas o que é isto? Um papel voador que se pega a quem não voa? Raios partam, custa tirá-lo do caminho. O alcatrão rola depressa como pára bruscamente. Mais um lancil. Alcatrão novamente e a calçada à portuguesa. Aqui um bocado mais limpa do que lá em baixo.
De repente tudo fica mais longe. Agora o chão não está tão perto. Olho para cima e vejo o meu dono, Mr. X, a dizer-me para sair do meio da rua pois vem lá um carro.
Que chatice pá, não se pode andar em lado nenhum.

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Buracos

Estava a chover intensamente e a trovejar aqui e ali. Mr. X tinha que passear o cão, mas aguardava pacientemente à janela pela bonança que nunca mais acontecia. O cão gania, uivava, fartinho de estar com a barriga cheia e de muitas horas sem correr e sem cheirar odores alheios. Mais a mais, este é daqueles cães que adora chuva e não tem medo de trovões e do seu barulho grave e fantasmagórico.
As horas passaram e não havia nada a fazer. Mr. X saiu para a intempérie pedindo ao cão que se despachasse mas sabendo de antemão que isso não iria acontecer.
A trovoada estava mais próxima, a chuva mais densa, o frio mais intenso. Num repente, um raio caiu a centímetros. O chão estremeceu e abriu-se numa profunda fenda. Mr. X foi engolido por esse desmoronamento e só ficou preso pela trela ao seu cão, que fazia um esforço sem limites para não ser puxado para o buraco.
Mr. X sabia que para salvar o seu cão teria que largar a trela. O bicho percebeu esse olhar e começou a ladrar e a puxar com mais força ainda. Mas as patas derrapavam na lama e nas pedras e o precipício estava cada vez mais próximo para o bicho.
Enquanto Mr. X ganhava coragem para a sua última acção, o cão decidiu que não podia acabar assim. Voltando-se ao contrário e num último esforço, começou a esgravatar a terra e a atirá-la para dentro do buraco onde estava o dono. As pedras, lamas, ramos e demais detritos passavam por cima da cabeça de Mr. X e aterravam lá em baixo. Ao fim de uma hora, já o cão tinha feito um enorme buraco paralelo ao outro que estava cada vez a ficar menos fundo. Até que aconteceu… Mr. X conseguia tocar com os pés num chão artificial mas salvador. Mais uma hora e chegou ao cimo, com a ajuda de alguns ramos bem presos e de pedras milagrosas. Correndo para o seu cão, vislumbrou-o no fundo do buraco que tinha feito com as suas patas. Chamou-o, gritou-o e percebeu que o seu cão estava em paz. Chorou-o. Muito. E muito. E muito. E muito.

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